O que é uma teologia da glória?
A teologia da glória é uma abordagem a Deus que pressupõe que a obra de Deus neste mundo pode ser identificada por meio de coisas grandiosas e impressionantes — força, sabedoria, honra, crescimento, conquistas, etc. Se um ministério está se expandindo e aumentando continuamente sua influência e seus recursos, então um teólogo da glória identificará isso como a obra de Deus por meio desse ministério. Se um cristão alcança grande honra e acumula autoridade neste mundo, um teólogo da glória presumirá que essa pessoa é abençoada por Deus.
Martinho Lutero cunhou a ideia de uma teologia da glória em sua Disputa de Heidelberg, de 1518. Nesse documento, ele contrastou uma teologia da glória (theologia gloriae) com o que chamou de teologia da cruz (theologia crucis). Lutero traçou uma linha nítida entre as duas: “A teologia da glória chama o mal de bem e o bem de mal. Uma teologia da cruz chama as coisas pelo que elas realmente são” (Disputa de Heidelberg, Tese 21, https://thebookofconcord.org/sources-and-context/heidelberg-disputation, acessado em 24/06/26).
De acordo com uma teologia da glória, Deus “se manifesta” de maneiras tangíveis e mensuráveis que nos impressionam. Como prova de que Deus está agindo, uma teologia da glória aponta para coisas como estas:
- uma igreja constrói um novo e enorme centro de culto
- ocorre uma cura milagrosa
- um candidato cristão vence a eleição para um cargo político
- um crente recebe uma promoção no trabalho e um salário maior
- uma tempestade se dissipa antes de atingir uma cidade
No século XVI, Martinho Lutero se opôs a esse tipo de pensamento. O fato de a Igreja estabelecida possuir catedrais grandiosas e seus cofres estarem transbordando de ouro não significava que Deus estivesse abençoando o papa. Segundo Lutero, esse tipo de pensamento leva ao orgulho: “Aquela sabedoria que vê as coisas invisíveis de Deus nas obras percebidas pelo homem está completamente cheia de orgulho, cega e endurecida” (ibid., Tese 22).
O que acontece quando as coisas não saem do jeito que nos agrada? Deus ainda está agindo, mesmo quando essas coisas acontecem?:
- uma igreja vai à falência e precisa fechar as portas
- orações por cura ficam sem resposta por anos
- um candidato cristão perde uma eleição para um político corrupto
- um crente perde o seu emprego
- uma tempestade atinge uma cidade, causando devastação generalizada
A alternativa de Lutero à teologia da glória foi a teologia da cruz. Nessa forma de pensar, Deus é conhecido principalmente por meio do sofrimento, da fraqueza e da aparente derrota. Cristo não nos salvou por meio do sucesso mundano; Ele não veio como um herói conquistador. A teologia da cruz reconhece que a salvação de Deus se revela na morte de Cristo e busca a presença de Deus também em meio ao nosso próprio sofrimento e dor.
Elisabeth Elliot, em seu livro Estas Cinzas Estranhas, escreveu sobre a experiência cristã do sofrimento: “Ser seguidor do Crucificado significa, mais cedo ou mais tarde, um encontro pessoal com a cruz. E a cruz sempre implica perda. O grande símbolo do cristianismo significa sacrifício, e ninguém que se intitule cristão pode fugir desse fato inegável” (p. 145 em inglês).
Um teólogo da cruz, escreveu Lutero, “compreende as coisas visíveis e manifestas de Deus vistas por meio do sofrimento e da cruz” (ibid., Tese 20). Em contraste, um teólogo da glória é aquele “que contempla as coisas invisíveis de Deus como se fossem claramente perceptíveis nas coisas que realmente aconteceram” (ibid., Tese 19).
O principal problema da teologia da glória é que ela tende a supor que Deus se revelará de maneiras que correspondam às nossas próprias expectativas ou que se ajustem à nossa definição do que é “grande”.
O apóstolo Paulo lembrou à igreja que Deus não age por meio da sabedoria e do poder humanos, mas por meio do que parece ser loucura e fraqueza:
Certamente a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, ela é poder de Deus. Pois está escrito:
“Destruirei a sabedoria dos sábios e aniquilarei a inteligência dos inteligentes.”
Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o questionador deste mundo? Não é fato que Deus tornou louca a sabedoria deste mundo? Visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, Deus achou por bem salvar os que creem por meio da loucura da pregação. (1 Coríntios 1:18–21)
"Verdadeiramente tu és um Deus que se esconde, ó Deus de Israel, ó Salvador" (Isaías 45:15), e uma teologia da cruz diria que Deus se esconde no sofrimento. Lutero usou a conversa de Jesus com Filipe para contrastar ainda mais a teologia da glória com a teologia da cruz:
Em João 14:8, onde Filipe falou de acordo com a teologia da glória: “Senhor, mostre-nos o Pai, e isso nos basta”. Cristo imediatamente afastou o seu pensamento frívolo de ver Deus em outro lugar e o conduziu a si mesmo, dizendo: “Há tanto tempo estou com vocês, Filipe, e você ainda não me conhece? Quem vê a mim vê o Pai” (João 14:9). Por essa razão, a verdadeira teologia e o reconhecimento de Deus estão no Cristo crucificado. (Ibid., nota sobre a Tese 20).
Não podemos avaliar um ministério com base apenas em sinais externos e visíveis de sucesso. A glória de Deus não é facilmente perceptível aos olhos humanos: “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que se veja que a excelência do poder provém de Deus, não de nós” (2 Coríntios 4:7).
O blogueiro Travis Allen descreve a teologia da cruz como aquela que "reconhece a obra de Deus como uma obra subversiva — uma obra que derruba o orgulho humano, frustra a sabedoria humana e age de forma contrária às expectativas humanas. O sofrimento da cruz — aquilo que é verdadeiramente visível e manifesto a respeito de Deus — não é impressionante segundo qualquer critério humano. Aquilo que é humilde, fraco, vil e desprovido de imponência — isto é, a realidade do sofrimento — não é algo que chame a atenção, lote conferências, conquiste seguidores ou construa uma base de fãs. Mas esse é o caminho da cruz, que é a verdadeira obra de Deus, demonstrada 'em Cristo Jesus, o qual se tornou para nós, da parte de Deus, sabedoria, justiça, santificação e redenção' (1 Coríntios 1:30)" - ("The Sin of Counting", 18/10/11, www.gty.org/blogs/B111018/the-sin-of-counting, acessado em 24/06/26).
A vida cristã não é uma vida de vitórias constantes e sucesso mensurável. É uma vida de carregar a própria cruz e negar a si mesmo (Marcos 8:34). O caminho para a glória passa pelo sofrimento, pela perseguição, pelas provações e pelas dificuldades (ver Atos 9:16; 14:22).
A compositora Laura Story canta sobre uma teologia da cruz na música “Blessings” (bênçãos):
E se Tuas bênçãos vierem por meio de gotas de chuva?
E se a Tua cura vier por meio das lágrimas?
E se mil noites sem dormir forem o que é preciso para saber que Tu estás perto?
E se as provações desta vida forem Tuas misericórdias disfarçadas? (Editora New Spring, Capitol CMG Genesis, 2011)
O que é uma teologia da glória?
