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Pergunta

Por que a sabedoria é chamada de "ela" em Provérbios?

Resposta


Em Provérbios 1:20-33 e Provérbios 8:1-9:12, a sabedoria é personificada como uma mulher que tem muito a oferecer - inclusive "riqueza e prosperidade duradouras" e "vida" - a qualquer pessoa que dê ouvidos às suas palavras (Provérbios 8:18, 35).

Examinaremos Provérbios 8 em particular, pois parece ser um ponto de partida para algumas "provas textuais" criativas de seitas como as Testemunhas de Jeová para chegar a conclusões sem nenhuma garantia textual. Abordaremos os três assuntos que geralmente são desconsiderados ao considerar esses versículos - figura de linguagem, gênero e gênero gramatical - para nos concentrarmos na pergunta: por que a Sabedoria é uma ela?

Vamos começar com as figuras de linguagem. Essas, por definição, não devem ser tomadas literalmente. Por exemplo: "E o Senhor disse: — O que foi que você fez? A voz do sangue do seu irmão clama da terra a mim" (Gênesis 4:10). Será que o sangue de Abel realmente clamou, de forma audível, do chão? Não. O Senhor estava usando uma figura de linguagem chamada personificação, ou prosopopeia, para ajudar Caim a entender a natureza inevitável do pecado. Percebemos que o sangue de Abel era inanimado, não articulado e de forma alguma capaz de falar - seu "grito" é apenas uma figura literária. Não podemos formular uma doutrina que diga que o sangue realmente fala depois que uma pessoa morre. Isso pode soar como bom senso, mas as pessoas podem e de fato inventam tais ensinamentos! Devemos estar atentos às figuras de linguagem, pois, na figura, as palavras exatas de Deus não correspondem ao Seu significado exato.

Em Provérbios 9:2, a sabedoria não é literalmente uma mulher que prepara um banquete. A sabedoria é uma qualidade intangível, mas Salomão a descreve como se fosse uma pessoa real - personificação, novamente. Mas por que a Sabedoria é uma "ela" e não um "ele"? Ao respondermos a essa pergunta, vamos considerar o gênero.

Provérbios 8 é poesia - um dos muitos gêneros encontrados na Bíblia. É importante levar isso em consideração, pois, se não soubermos o que estamos lendo, não saberemos como devemos ler. O leitor sempre dará algum sentido às palavras, mas se o gênero não for considerado, o leitor provavelmente perderá a intenção do autor. Por exemplo, se estivermos lendo A Ilha do Tesouro, é importante entendê-la como um romance, ou seja, uma obra de ficção. Esse entendimento evitará que busquemos a história da família de Jim Hawkins como se ele fosse uma pessoa real. Ao ler a Bíblia, se não entendermos a intenção do autor, não entenderemos a intenção de Deus - o que, obviamente, é o que importa quando se trata de interpretar Sua Palavra.

Provérbios 8 é um tipo específico de poema chamado encômio - um poema de louvor. Outros encômios nas Escrituras são encontrados em 1 Coríntios 13 (em louvor ao amor), Hebreus 11 (em louvor à fé) e Provérbios 31:10-31 (em louvor à esposa virtuosa). Não podemos interpretar a poesia da Bíblia da mesma forma que interpretamos suas narrativas históricas, suas profecias, suas passagens apocalípticas, etc. Por exemplo, não podemos tratar "O amor é paciente, o amor é bondoso" (1 Coríntios 13:4) da mesma forma que "Quando uma pessoa tiver na sua pele inchação, pústula ou mancha lustrosa, e isto se tornar na sua pele como praga de lepra, essa pessoa será levada a Arão, o sacerdote, ou a um de seus filhos, sacerdotes" (Levítico 13:2). A primeira passagem é efusiva, a segunda é exigente. Esses são apenas dois exemplos de tipos de escritos que devem ser lidos com sensibilidade ao seu gênero, propósito e contexto. Portanto, quando lemos que a Sabedoria é uma "ela", entenda que Provérbios é fortemente artístico; portanto, não estamos lendo uma definição técnica de sabedoria.

Por fim, vamos falar sobre gênero na linguagem. O idioma hebraico (no qual Provérbios foi escrito) usa o gênero gramatical, assim como o espanhol, o francês, o português e muitos outros idiomas. É aí que está o nosso problema. "Ela", como a entendemos, não é necessariamente "ela", como era a intenção no hebraico.

Em português, quase todos os substantivos têm gênero. Dizemos menina/ela e menino/ele naturalmente. Objetos sem sexo biológico, como navio, também têm gênero: navio é masculino, então usamos ele/dele. O gênero é parte da gramática, não apenas do significado real.

Em muitos idiomas (incluindo o hebraico), a maioria dos substantivos tem um forte componente de gênero, mas a atribuição de gênero é gramatical e não indica necessariamente o gênero físico do objeto. Em espanhol, um violão (la guitarra) é feminino, e um carro (el coche) é masculino. Isso não tem nada a ver com o gênero literal. De fato, a palavra portuguesa masculinidade é um substantivo feminino! Portanto, ao traduzir do hebraico para o português, devemos distinguir o gênero gramatical das nossas noções de gênero sexual.

Em português, a palavra sabedoria não é gramaticalmente neutra, assim como no hebraico. A palavra hebraica é chokmoth, e é gramaticalmente feminina. Em hebraico, teria sido natural falar da sabedoria como "ela".

Conforme mencionado anteriormente, Salomão usou a ferramenta literária da personificação para exaltar a ideia inanimada e abstrata da sabedoria como se fosse uma pessoa real. Ao fazer isso, Salomão comunicou uma ilustração vívida das bênçãos de ser sábio. Ao personificar a sabedoria, foi necessário usar os pronomes apropriados. Como não se refere a uma pessoa como "isso", a Sabedoria como antecedente exige pronomes pessoais femininos. A construção gramatical é um artefato do processo de personificação. Em outras palavras, como a palavra sabedoria é feminina (na gramática hebraica), a Sabedoria personificada se torna uma "ela" para satisfazer as exigências da dicção - não para acrescentar informações ao seu objeto.

Pode haver algumas outras razões pelas quais Salomão retratou a Sabedoria como "ela". No contexto mais amplo, Salomão está traçando um cuidadoso contraste entre escolhas sábias e tolas. Imediatamente antes e depois de apresentar a Sabedoria como uma elegante dama que oferece riquezas e satisfação, Salomão apresenta uma imagem da Insensatez, retratada como uma prostituta que promete prazer, mas que entrega a morte (Provérbios 6:24-7:27; 9:13-18). Assim, a insensatez da imoralidade é contrastada com a sabedoria da virtude. Duas ilustrações paralelas são usadas, e ambas envolvem uma mulher virtual.

Além disso, Provérbios nos mostra a Sabedoria personificada realizando atividades que normalmente são associadas a uma mulher (como preparar uma refeição, Provérbios 9:2, 5). Essa descrição transcende a gramática técnica e torna ainda mais necessários os pronomes femininos aplicados à Sabedoria.

Salomão não estava dizendo que as mulheres são intrinsecamente mais sábias do que os homens - isso seria interpretar demais o uso da gramática. E ele definitivamente não estava se referindo a algum tipo de deusa chamada "Sabedoria" ou "Sofia".

É impossível dizer se Salomão pretendia ou não uma representação feminina da sabedoria desde o início. Talvez os fundamentos femininos da palavra sabedoria tenham influenciado a sua escolha, ou talvez ele simplesmente tenha se deixado levar pela gramática feminina e a tenha usado. De qualquer forma, o uso de ela não foi necessariamente motivado por qualquer feminilidade intrínseca da sabedoria. Sendo assim, os homens não devem se sentir insultados nem as mulheres envaidecidas com a sua leitura.

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