Pergunta
Quem foi William Barclay?
Resposta
William Barclay (1907—1978) foi um estudioso do Novo Testamento e ministro da Igreja da Escócia, mais conhecido por suas transmissões de rádio e televisão e por seus escritos produzidos e publicados como o Daily Study Bible (Estudo Diário da Bíblia). O principal interesse de Barclay era comunicar a história, a teologia e a linguagem do Novo Testamento de uma forma compreensível e relevante para as pessoas comuns de sua época.
Nascido em Wick, na Escócia, Barclay era descendente de montanheses escoceses. Seu pai era um ministro leigo evangélico que pregava em gaélico e trabalhava como gerente no Bank of Scotland (Banco da Escócia). A família mudou-se para Motherwell — a cidade que Barclay chamava de lar — quando ele tinha cinco anos. Aos 12 anos, Barclay sentiu o chamado para pregar.
Barclay estudou artes clássicas e teologia na Universidade de Glasgow, obtendo seu diploma em 1932. Em seguida, ele cursou mais um ano na Universidade de Marburg, na Alemanha. Em 1933, William Barclay foi ordenado pela Igreja da Escócia e começou a exercer o ministério na Trinity Church (Igreja da Trindade), em Renfrew (próximo a Glasgow), onde permaneceu até 1946.
O tempo que Barclay passou naquele púlpito durante a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial aproximou-o das pessoas da classe trabalhadora das fábricas e estaleiros navais vizinhos. Lá, “ele aprendeu a falar em uma linguagem compreensível para as pessoas comuns. No entanto, ele também aprendeu a não subestimar seu público, um ponto que mais tarde ele enfatizou para seus alunos” (Douglas, J. D., “Barclay, William”, Quem é Quem na História Cristã, Douglas, J. D., e Comfort, P., eds., Tyndale House, 1992, p. 61).
Em 1933, William casou-se com Katherine Gillespie, filha de um ministro, descrita como "uma pessoa vivaz" que tinha "um grande interesse pelo seu trabalho" (www.lifeandwork.org/features/looking-back-this-man-barclay, acessado em 20/08/23). O casal teve três filhos, duas meninas e um menino. A filha mais velha morreu tragicamente afogada em um acidente de iate aos 21 anos.
Em 1947, William Barclay assumiu o cargo de professor de Novo Testamento na Universidade de Glasgow. Posteriormente, foi nomeado professor sênior de grego helênico e, em 1963, tornou-se professor de teologia e crítica bíblica, cargo que ocupou até a sua aposentadoria, em 1974. Continuou a lecionar como professor visitante na Universidade de Strathclyde. Foi condecorado com a Ordem do Império Britânico (CBE da sigla em inglês) pela rainha Elizabeth II.
Um dos alunos de Barclay o descreveu como um homem de família generoso, encantador e alegre, que trabalhava arduamente e apreciava a vida. Ele era altamente disciplinado em seu trabalho, possuía uma memória fotográfica e tinha o dom de pensar em imagens. Apesar de ter perdido a audição, Barclay ainda conseguiu liderar o coro da faculdade. Ele considerava sua surdez uma vantagem: “Quando estava escrevendo, ele desligava o aparelho auditivo e, assim, escapava de todas as intrusões e se concentrava totalmente em seu trabalho” (www.preaching.com/articles/past-masters/william-barclay-remarkable-communicator/, acessado em 20/08/23). As experiências de Barclay entre os trabalhadores da Escócia inspiraram seu famoso comentário versículo por versículo do Novo Testamento, em 17 volumes, intitulado Daily Study Bible (Bíblia de Estudo Diário), publicado inicialmente entre 1954 e 1978. O trabalho começou como uma medida temporária. Depois que o autor do currículo da Igreja da Escócia adoeceu, Barclay foi convidado a substituí-lo como escritor. No entanto, Barclay nunca abandonou o projeto, e a primeira edição vendeu mais de cinco milhões de cópias. Cada volume da série contém a tradução única de Barclay do Novo Testamento em inglês coloquial. A última edição, a New Daily Study Bible (Nova Bíblia de Estudo Diário), foi lançada em 2001.
Barclay descreveu-se como um "evangélico liberal" (Douglas, op. cit., p. 61), e o seu modernismo tornou-se mais evidente à medida que envelhecia. Barclay relutava em defender a inspiração das Escrituras, criticava a doutrina da expiação substitutiva e expressava dúvidas sobre o nascimento virginal. Ele minimizou a natureza literal dos milagres nas Escrituras. Por exemplo, ele duvidava que Jesus realmente tivesse ressuscitado o filho da viúva em Lucas 7:11-17:
"É possível que estejamos diante de um milagre de diagnóstico; que Jesus, com seus olhos perspicazes, percebeu que o jovem estava em transe cataléptico e o salvou de ser enterrado vivo, como tantos outros na Palestina" (Barclay, W., A Nova Bíblia de Estudo Diário: O Evangelho de Lucas, Westminster John Knox Press, 2001, p. 105).
Os mesmos "olhos perspicazes" de Jesus também são utilizados para explicar o milagre da pesca milagrosa em Lucas 5:1-11:
"Não é necessário considerar que Jesus criou um cardume de peixes para a ocasião. No Mar da Galileia, havia cardumes fenomenais que cobriam o mar como se fosse sólido por até um acre. Provavelmente, o olhar perspicaz de Jesus percebeu exatamente esse cardume e sua visão aguçada fez com que parecesse um milagre" (Ibid., p. 68).
Barclay chegou a questionar a divindade de Cristo:
"Não é que Jesus seja Deus. Repetidas vezes, o Quarto Evangelho fala de Deus enviando Jesus ao mundo. Repetidas vezes, vemos Jesus orando a Deus. Repetidas vezes, vemos Jesus aceitando — sem hesitação, sem questionamentos e incondicionalmente — a vontade de Deus para si mesmo. Em parte alguma o Novo Testamento identifica Jesus com Deus. Ele disse: 'Aquele que me viu, viu a Deus.' Há atributos de Deus que não vejo em Jesus. Não vejo a onisciência de Deus em Jesus, pois há coisas que Jesus não sabia" (Barclay, W., A Mente de Jesus, Harper & Row, 1961, p. 56).
À luz dos problemas teológicos de Barclay, ele deve ser lido com cautela. Contudo, há valor em sua obra. Ele era um bom escritor, hábil em organização e em reunir os diversos temas das Escrituras em um todo compreensível. E ele sempre fazia um chamado à ação. William Barclay acreditava que todo cristão deveria ser um estudante da Palavra de Deus, aplicando a sua verdade e vivendo os ensinamentos de Cristo no dia a dia.
Além de sua Bíblia de Estudo Diário, Barclay escreveu mais de 50 livros, a uma média de cerca de três por ano. Embora tenha começado a trabalhar nos livros do Antigo Testamento (Gênesis e Salmos), a doença de Parkinson interrompeu essa jornada prematuramente. Barclay faleceu em 1978, aos 71 anos, em Glasgow.
Considere estas citações dos escritos de William Barclay:
"Jesus prometeu três coisas aos seus discípulos: que eles seriam completamente destemidos, absurdamente felizes e estariam constantemente em dificuldades." (Evangelho de Lucas)
"É necessário redescobrir o brilho perdido da fé cristã. Em um mundo preocupado, os cristãos devem ser os únicos a permanecerem serenos. Em um mundo deprimido, os cristãos devem ser os únicos a permanecerem cheios da alegria da vida." (Evangelho de Mateus)
"A esperança cristã é aquela que tem observado tudo e suportado tudo, e ainda assim não se desesperou, porque acredita em Deus. A esperança cristã não é a esperança no espírito humano, na bondade humana, na resistência humana, nas realizações humanas; a esperança cristã é a esperança no poder de Deus." (Carta aos Romanos)
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