Pergunta
Como um cristão deve encarar a psicoterapia?
Resposta
A psicoterapia, ou aconselhamento psicológico, é a prática que visa tratar os problemas emocionais e mentais de uma pessoa. A prática terapêutica geralmente se concentra em conversas regulares entre um terapeuta e um cliente, conhecidas como “terapia da conversa”. Essas sessões podem incluir a exploração de pensamentos perturbadores, medos e história pessoal. Também podem incluir exercícios para ajudar a ajustar pensamentos ou comportamentos problemáticos. Frequentemente, os clientes recebem “tarefas” entre as sessões, que podem consistir em coisas como observar e anotar emoções ou comportamentos, tentar modificações de pensamento e comportamento e similares. Às vezes, os psicoterapeutas também trabalham em colaboração com médicos. O objetivo geral da psicoterapia é aumentar a consciência e a compreensão da pessoa sobre as possíveis causas de sentimentos e comportamentos indesejados, de modo a alcançar uma diminuição das emoções e comportamentos prejudiciais.
Diferentes psicoterapeutas baseiam suas práticas em diferentes teorias psicológicas e empregam diferentes modalidades e técnicas de tratamento. A psicoterapia também abrange uma ampla gama de questões emocionais e comportamentais. Estas podem incluir questões como problemas de relacionamento, depressão, ansiedade, transtorno bipolar, esquizofrenia, transtorno de estresse pós-traumático, controle da raiva, recuperação de dependência química, dificuldades de aprendizagem e muito mais. Assim, é extremamente difícil apresentar uma visão cristã da psicoterapia como um todo. Dito isso, às vezes os cristãos têm preocupações com a psicoterapia. Exploraremos algumas das razões para isso.
Alguns cristãos acreditam que a psicoterapia desconsidera a realidade do pecado e, em vez disso, rotula questões relacionadas ao pecado como transtornos mentais. Eles afirmam que a psicoterapia atenua a responsabilidade pessoal ao justificar pensamentos e comportamentos problemáticos como doença, em vez de como coisas a serem superadas. Parece que essa afirmação se aplica apenas a certos diagnósticos de saúde mental e não a tudo o que é classificado pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais ou a questões não diagnosticáveis. É verdade que alguns psicoterapeutas desconsideram o pecado e a responsabilidade pessoal. No entanto, como o objetivo da psicoterapia geralmente é superar a doença, ter um diagnóstico não é normalmente visto como um “passe livre” para se comportar da maneira que a pessoa quiser.
Outros cristãos reconhecem tanto os transtornos mentais quanto o pecado como reais. Nem todos os transtornos mentais classificáveis estão relacionados ao pecado, a não ser como um resultado geral da queda e da realidade da morte e da decadência que nosso mundo agora enfrenta. Nem todos os pecados são classificados como transtornos mentais pela comunidade psicológica. Esses cristãos veem a psicoterapia como uma ferramenta para ajudar a superar questões problemáticas. Eles afirmariam que ter um diagnóstico de saúde mental não diminui a responsabilidade pessoal por controlar as próprias emoções e comportamentos; ao contrário, ajuda a explicar por que uma pessoa pode ser particularmente propensa a uma resposta emocional ou comportamental específica. Esses cristãos diriam que a psicoterapia pode ajudar com ferramentas práticas para reconhecer e superar a questão.
Alguns cristãos consideram impossível separar a prática da psicoterapia da visão de mundo humanista sobre a qual muitas teorias psicológicas são fundamentadas. Eles também podem perceber que a psicoterapia é usada como uma espécie de quase-religião ou suposto salvador na mente de algumas pessoas e, por isso, rejeitá-la completamente. Outros cristãos desconsideram o fundamento filosófico de certas teorias e, em vez disso, integram aquilo que consideram útil da prática psicológica à cosmovisão bíblica que orienta suas vidas. Esses cristãos não ignorariam o que a Bíblia diz sobre a nossa necessidade de salvação, a cura disponível em Jesus Cristo ou como devemos viver como resultado de conhecê-lo. Mas também enxergariam a psicoterapia como uma possível ferramenta que pode ajudar algumas pessoas nesse processo de cura. Eles não veriam coisas como explorar o próprio passado, reconhecer e expressar emoções e utilizar técnicas de modificação de comportamento como algo contraditório à Bíblia. Tampouco veriam essas práticas como substitutas do crescimento espiritual.
Talvez um dos fatores mais complicadores na psicoterapia seja o fato de que muito depende do terapeuta e do cliente. O Código de Ética da Associação Americana de Aconselhamento (2014) exorta os terapeutas a serem neutros: “Os conselheiros estão cientes de — e evitam impor — seus próprios valores, atitudes, crenças e comportamentos. Os conselheiros respeitam a diversidade dos clientes, estagiários e participantes de pesquisa e buscam treinamento em áreas nas quais correm o risco de impor seus valores aos clientes, especialmente quando os valores do conselheiro são inconsistentes com os objetivos do cliente ou são de natureza discriminatória” (Seção A.4.b; www.counseling.org/docs/default-source/ethics/2014-code-of-ethics.pdf?sfvrsn=2d58522c_4, acessado em 20/10/2020). Embora esse código de ética seja bem-intencionado, o aconselhamento, por sua própria natureza, é carregado de valores. Um terapeuta que não tenha uma cosmovisão bíblica pode ser capaz de aceitar a cosmovisão bíblica de um cliente e apoiá-la. Mas esse terapeuta também pode pensar que a crença do cliente em Deus e na Sua Palavra é parte do problema que o levou à terapia. Isso também pode ser um desafio para terapeutas cristãos que tentam agir dentro dos limites éticos de sua profissão e que acreditam que uma cosmovisão bíblica é o que será mais útil para seus clientes.
Seja evitando toda a psicoterapia ou fazendo uso dela como ferramenta, todos precisamos ter o cuidado de estudar a Palavra de Deus e confiar nEle como a nossa fonte de verdade. 2 Timóteo 3:16–17 diz: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o servo de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.” Hebreus 4:12 fala sobre como a Palavra de Deus pode discernir até mesmo nossas motivações e intenções. Salmos 119:105 diz que a Palavra de Deus é uma luz para o nosso caminho. É sensato examinarmos tudo o que nos for ensinado na psicoterapia à luz do que a Bíblia realmente diz.
Também precisamos seguir as instruções que Deus nos dá sobre como viver, não apenas em nossas vidas pessoais, mas em comunidade. Isso inclui nossos comportamentos. Mas também envolve o nosso relacionamento pessoal com Deus. Não apenas devemos ler regularmente a Sua Palavra para conhecê-lo melhor, como também devemos nos aproximar regularmente de Deus em oração (Hebreus 4:14–16; 10:19–23). Um psicoterapeuta não pode substituir Deus em nossas vidas. A Bíblia também nos encoraja a participar regularmente da comunhão cristã. Devemos chorar e nos alegrar uns com os outros (Romanos 12:15); devemos encorajar e exortar uns aos outros (Hebreus 3:12–13; 10:24–25). A psicoterapia não é um substituto para a igreja.
Não importa como um cristão em particular veja a psicoterapia, todos podemos concordar que a cura e a transformação definitivas vêm somente de Deus. O nosso principal problema como seres humanos é a separação de Deus devido ao pecado (Romanos 3:23; 6:23). Somente pela graça de Deus, por meio da fé em Jesus, podemos ser reconciliados com Ele (Efésios 2:1–10). Quando isso acontece, entramos em um processo de transformação no qual aprendemos a dar morte ao pecado e a viver como Deus deseja que vivamos (2 Coríntios 5:17–21; Romanos 12:2; Filipenses 2:12–13). Ainda enfrentamos lutas e dificuldades na vida, mas Deus está conosco (Tiago 1:2–18; Romanos 8:28–30). Podemos nos apoiar nEle para nossas necessidades e confiar que Ele nos transformará (1 Pedro 5:6–9; Filipenses 1:6; 4:6–9).
English
Como um cristão deve encarar a psicoterapia?
