Pergunta
A campanha publicitária “He Gets Us” é bíblica?
Resposta
*Este artigo foi atualizado em resposta ao comercial de 2024 da campanha “He Gets Us”, exibido durante o Super Bowl.
Em 2022, a frase “He Gets Us” começou a aparecer em anúncios. Cada comercial conecta um tema cultural moderno às experiências de Cristo. Isso inclui Jesus enfrentando conflitos familiares, perseguição, incompreensão, pobreza e solidão. Outros abordam temas como tolerância, maternidade solteira e hipocrisia religiosa. Os anúncios conectam pessoas em busca de respostas a igrejas e grupos de discussão. A reação à campanha tem sido mista, e o anúncio de 2024 exibido durante o Super Bowl foi criticado tanto por perspectivas pró-cristãs quanto anti-cristãs. Até o momento, nada na campanha parece explicitamente antibíblico, embora haja motivos de preocupação. Os principais deles são os recursos para os quais “He Gets Us” direciona seus visitantes e a mensagem que pode ser facilmente mal interpretada na forma como os temas são apresentados.
O ceticismo cauteloso é sempre importante (1 João 4:1), especialmente em temas espirituais. Nenhuma iniciativa humana é infalível, mas algumas são mais adequadas biblicamente do que outras. Há muitos aspectos positivos na campanha “He Gets Us”. As implicações desconfortáveis seguem o padrão do ministério terreno de Jesus. Os temas escolhidos provavelmente desafiam tanto aqueles que tendem a rejeitar quanto os que tendem a aceitar uma visão estereotipada do cristianismo. O próprio padrão de evangelismo de Cristo começou com relacionamento e depois avançou para doutrina formal. No entanto, a campanha em si não se baseia em crenças ou verdades específicas. Embora possa atrair pessoas tradicionalmente não alcançadas, parece pouco provável que as firme na Bíblia. Além disso, alguns pontos apresentados são ambíguos e facilmente mal interpretados.
Termos como “promoção” e “marketing” são desconfortáveis quando aplicados ao evangelismo. De fato, o evangelho não deve ser “vendido” (Atos 8:20). O evangelismo não é uma questão de persuasão comercial (1 Coríntios 2:1–2). No entanto, promoção é simplesmente chamar atenção para algo na esperança de que as pessoas o busquem. Nesse sentido, não há problema em “divulgar” Jesus para aqueles não alcançados por outras formas de evangelismo (veja 1 Coríntios 9:22).
Da mesma forma, a ausência de teologia profunda nos anúncios “He Gets Us” não é necessariamente inadequada. O evangelismo do Novo Testamento envolve declarar publicamente as verdades centrais do evangelho (Atos 4:10–12). Doutrinas mais profundas não são o foco imediato; o objetivo é tornar as pessoas conscientes de quem Jesus é e do que Ele fez por elas. Mais cedo ou mais tarde (Mateus 19:21; João 6:60), todos são confrontados com a verdade doutrinária e precisam tomar uma decisão (João 6:67–68).
Uma preocupação importante sobre os anúncios “He Gets Us” é para onde eles levam aqueles que respondem. O site da campanha menciona a morte e ressurreição de Jesus e se refere a Ele como Filho de Deus. Alguns links direcionam para o Alpha, um ministério evangelístico baseado em pequenos grupos. No entanto, outros links conectam o buscador a igrejas locais sem considerar diretrizes doutrinárias. Como resultado, a campanha pode acabar conduzindo pessoas para algo que não esteja firmemente alinhado com a verdade bíblica.
O povo de Deus sempre enfrentou dificuldades para representá-lo corretamente no mundo (Romanos 2:22–24; 1 Pedro 2:12; 1 Coríntios 5:1–2). Um dos motivos da campanha “He Gets Us” é a percepção da ligação entre a cultura ocidental — principalmente americana — e o cristianismo. Nem todas essas conexões são positivas. Um dos objetivos declarados da campanha é mostrar que o verdadeiro Jesus bíblico não é definido por esses estereótipos. Os temas explorados nos anúncios desafiam deliberadamente visões políticas conservadoras e tradicionais. Esses desafios não são biblicamente falsos. Ainda assim, quando vistos como um todo, eles ecoam uma postura política frequentemente em tensão com a fé bíblica. Por outro lado, parte do objetivo da campanha é justamente sugerir que muitas dessas divisões políticas são falsas.
Alguns anúncios são questionáveis em termos de precisão. Por exemplo, o tema “Jesus era um refugiado” compara Maria, José e Jesus a refugiados do século XXI que fogem de guerra e pobreza. Embora haja semelhanças, os dois contextos são diferentes. O texto do site sugere uma fuga desesperada e sem direção, como se a família tivesse partido sem recursos ou conhecimento. Na realidade, a família de Jesus se deslocou para uma região com significativa população judaica, relativamente próxima de Belém. Eles não fugiram do Império Romano, mas da jurisdição de Herodes. Além disso, isso ocorreu após receberem presentes dos magos (Mateus 2:11–12), que provavelmente ajudaram a financiar a ida ao Egito (Mateus 2:13–15). Isso não elimina paralelos possíveis com refugiados modernos, mas levanta a preocupação de que a campanha reinterprete a história de Jesus para sustentar narrativas políticas contemporâneas.
O anúncio do Super Bowl de 2024 usou imagens que podem confundir mais do que esclarecer. O comercial incluiu pessoas lavando os pés de outras. Uma cena controversa mostrou uma mulher em frente a uma clínica de aborto lavando os pés de outra mulher ali para interromper uma gravidez. Outra mostrou um sacerdote lavando os pés de uma pessoa associada à comunidade LGBTQ+. O slogan dizia: “Jesus não ensinou ódio. Ele lavou pés.”
Sem dúvida, ideias como amor, humildade e graça são fundamentais para a fé bíblica. Elas se opõem a preconceito, tribalismo e justiça própria. Jesus foi criticado por se aproximar com amor de pessoas rejeitadas pela comunidade religiosa. Ele serviu com amor sacrificial e humildade. O Novo Testamento chama os crentes a serem gentis, perdoados e misericordiosos, inclusive com aqueles que rejeitam o evangelho. Nesse sentido, as imagens têm conexão com ideais cristãos.
No entanto, o ato de Jesus lavar os pés dos discípulos tinha um contexto específico: era uma lição de humildade entre discípulos e sobre arrependimento dentro da comunidade de fé. Em sentido literal, não era um gesto geral aplicado a todas as situações externas. Além disso, o uso do termo “ódio” tem implicações culturais fortes. Cristãos frequentemente são acusados de “ódio” por suas crenças bíblicas sobre moralidade e fé. A associação de temas como aborto e sexualidade à rejeição do “ódio” pode ser interpretada como pressão para abandonar posições bíblicas históricas. Por outro lado, também pode ser entendido como uma rejeição do ódio real e do comportamento violento. A ambiguidade, porém, gera diferentes interpretações.
As imagens do anúncio do Super Bowl podem ser vistas como uma chamada para aceitar ou afirmar coisas que Deus considera pecado. Em uma leitura mais favorável, podem ser entendidas como um convite à gentileza e ao amor ao compartilhar o evangelho. Em outra, podem parecer uma aprovação de aborto, pecado sexual ou falsas religiões. No mínimo, é necessário reconhecer ambas as possibilidades e agir com cautela.
Outros temas do site também podem ser facilmente mal interpretados. Dizer que “Jesus convidou todos para sua mesa” enfatiza abertura e perdão, mas Jesus também confrontou o pecado e chamou ao arrependimento (João 3:16–18, 36). Hashtags como #inclusivo são frequentemente aplicadas a ideias que Jesus não necessariamente aprovou. Não é possível entender corretamente como Jesus lidou com injustiça sem reconhecer que o seu objetivo não era poder político (João 18:36). Se a campanha conectasse esses temas de forma clara a recursos bíblicos, a falta de profundidade inicial não seria tão preocupante. Mas, considerando o público-alvo e os links oferecidos, permanece uma dúvida sobre intenção e eficácia.
“He Gets Us” é uma campanha de marketing direcionada. Não é um movimento ou igreja. Não está claro qual será sua influência ou duração. Apontar pessoas para Cristo de formas inesperadas pode ser algo positivo (Marcos 9:40; Filipenses 1:15–18). Por outro lado, fornecer imagens que podem ser facilmente usadas para ensinar ideias antibíblicas é menos benéfico. Devemos orar para que a campanha leve, no fim, a conversas sobre o verdadeiro Cristo descrito nas Escrituras. O impacto a longo prazo desses anúncios ainda está por ser visto.
English
A campanha publicitária “He Gets Us” é bíblica?
