Pergunta

É bíblico chamar a esposa de um pastor, ancião ou bispo de “Primeira-Dama da igreja”?

Resposta
A prática de chamar a esposa de um ancião de uma igreja local de “Primeira-Dama” (ou “Primeira-Dama da Igreja” ou, abreviadamente, “Sra. [nome e/ou sobrenome]”) não tem origem na Bíblia. Não há nenhum precedente para isso na Palavra de Deus, e a prática é, na verdade, antitética a princípios como o de servidão e imparcialidade entre os seguidores de Cristo.

Primeiro, não há instruções na Palavra de Deus sobre conferir o título de “Primeira-Dama” a ninguém; não existe um cargo ou função de “primeira-dama” na igreja local. Em Efésios 4:11–13, Paulo enumera os vários cargos que foram estabelecidos por Cristo com o propósito de que a igreja “alcance toda a medida da plenitude de Cristo”; nem uma única vez o cargo, função ou título de “primeira-dama” é mencionado. A passagem nem mesmo menciona uma “esposa de pastor”. Os cargos listados — apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres — não são títulos, mas cargos ou funções.

Segundo, não há precedente de uma “primeira-dama” entre as várias mulheres honradas de Deus nas Escrituras, seja no Antigo ou no Novo Testamento. Por exemplo, a esposa de Noé nunca foi consultada por Deus a respeito da construção da arca (Gênesis 6–9). Sara não acompanhou Abraão quando ele foi oferecer seu (e o dela) único filho ao Senhor (Gênesis 22:1–19). A esposa de Moisés não o ajudou a conduzir Israel para fora do Egito nem a entregar os Dez Mandamentos. Abigail, embora tenha provado a sua grande integridade e lealdade, nunca foi referida por qualquer título que não fosse “esposa de Davi” (1 Samuel 25).

Até mesmo a esposa do apóstolo Pedro é mencionada apenas indiretamente nas Escrituras, por meio de uma referência à sogra de Pedro (Mateus 8:14–15). Visto que Pedro era um apóstolo proeminente e um dos fundadores da igreja, a sua esposa não deveria ter algum nível especial de importância? Mas ela não é mencionada. A igreja não tinha uma “primeira-dama”.

Mesmo as mulheres que são honradas no Novo Testamento como grandes servas do Senhor (por exemplo, Maria, Marta, Priscila, Dorcas, etc.) não recebem nenhum cargo ou título especial na igreja. Essa verdade inclui a “senhora eleita” a quem João escreve sua segunda carta (2 João 1:1) e uma segunda mulher a quem ele chama de “irmã eleita” (2 João 1:13). Essas mulheres “eleitas” não são chamadas por algum título ou cargo; ao contrário, João está expressando o simples fato de que elas, assim como ele e todos os crentes, fazem parte da igreja universal. Essas mulheres são chamadas de senhoras “eleitas” porque crêem em Jesus como Senhor e Salvador, e foram escolhidas por Deus desde a fundação do mundo (Efésios 1:4).

A tradição de chamar a esposa do pastor de “Primeira-Dama” é inspirada na prática secular de conceder distinção e honra especiais às esposas de chefes de governo ou de Estado (presidentes, primeiros-ministros, governadores, etc.). O raciocínio é que, uma vez que se concede honra ao cargo de presidente dos Estados Unidos, por exemplo, então também se deve conceder honra à sua esposa — daí “Primeira-Dama” Michelle Obama ou “Primeira-Dama” Laura Bush. Esse raciocínio é estendido ao contexto da igreja: uma vez que os pastores estão realizando uma obra mais grandiosa para o próprio Deus do que qualquer chefe de Estado terreno, certamente eles (e suas esposas) merecem pelo menos a mesma honra. O pensamento parece ser: o que é bom para o presidente e a primeira-dama da Casa Branca é bom para o pastor e a “primeira-dama” da casa de Deus.

Em muitas igrejas, a “primeira-dama” é frequentemente considerada uma líder por si só, com autoridade para tomar decisões em quase todas as facetas do ministério. Pela mera virtude de com quem ela é casada, ela tem permissão para ter voz quase igual em tudo o que acontece no ministério. Esse não é o caso em todas as igrejas locais, mas é uma tendência que vem se ampliando. O uso dos títulos “Pastor” e “Primeira-dama” facilmente evolui para chamar ambos de “Pastores”, apesar da proibição bíblica contra mulheres pastoras.

As razões pelas quais ninguém na igreja deveria ser chamado de “Primeira-dama” incluem o seguinte:

• Deus é quem designa os cargos na igreja e as pessoas para ocupá-los. Muitas vezes, ser casada com o pastor é a única qualificação da chamada “primeira-dama” para uma suposta posição de honra ou autoridade especial. Isso, por sua vez, significa que algumas igrejas locais têm mulheres líderes que não são equipadas pelo Espírito Santo, que são espiritualmente imaturas e que podem causar muito dano ao seu ministério.

• “Primeira-dama da Igreja” é um título criado pelo homem, nascido das tradições dos homens. Por mais bem-intencionadas que sejam, as tradições dos homens não têm precedência sobre o que Deus estabelece em Sua Palavra.

• O uso do título “Primeira-Dama da Igreja” frequentemente se estende a chamar os filhos do pastor de “Primeiro Filho” ou “Primeira Filha”. Mas a igreja de Deus não é uma dinastia familiar, e os anciãos de uma igreja não são chefes de Estado. Eles, suas esposas e seus filhos não são superiores a ninguém na igreja que esteja cumprindo o papel que Deus lhe deu.

• Embora seja natural dar mais atenção e honra à família mais visível na congregação local, conceder-lhes tratamento real cria uma estrutura hierárquica que é diametralmente oposta ao espírito de humildade, serviço, imparcialidade e respeito mútuo que todos os crentes devem demonstrar uns aos outros, independentemente de quem sejam (por exemplo, Lucas 6:31; Romanos 11:18; Efésios 4:1–25; Hebreus 13:16).

• Distinguir a esposa de um pastor chamando-a de “primeira-dama” confere-lhe um nível desnecessário de prestígio entre as outras mulheres da igreja, cada uma das quais é tão senhora quanto ela. Referir-se a alguém como “primeira” e tratá-la de acordo com isso cria um precedente de privilégio especial e direito que não tem lugar na igreja de Deus.

• O título de “primeira-dama” frequentemente se manifesta em uma competição ímpia entre os crentes e na ostentação da carne na igreja. Por exemplo, em muitas igrejas espera-se que a chamada “primeira-dama” — e ela mesma espera isso — se destaque usando as melhores roupas, exibindo o melhor chapéu, bolsa, sapatos e joias, e tendo o melhor penteado. Isso é até chamado de “Estilo Primeira-Dama” em alguns círculos, mas é antitético a 1 Pedro 3:3–4, que adverte as mulheres: “Que a beleza de vocês não seja exterior, como tranças nos cabelos, joias de ouro e vestidos finos, mas que ela esteja no ser interior, uma beleza permanente de um espírito manso e tranquilo, que é de grande valor diante de Deus.”

Surgirá a pergunta: e se as pessoas quiserem demonstrar sua gratidão pelo trabalho árduo que o pastor e a esposa do pastor realizam por elas? Chamá-la de “Primeira-Dama” não pode ser uma expressão legítima de gratidão? Não basta que o coração das pessoas esteja no lugar certo e que elas não tenham má intenção para com ela, o pastor ou a igreja?

É bíblico dar honra a quem é devido. Mas certamente existem outras formas, biblicamente aceitáveis, de demonstrar apreço que não envolvem acrescentar nada à Palavra de Deus nem contradizê-la. A Palavra de Deus sobre os cargos-chave na igreja local é suficiente (2 Timóteo 3:15–17).

Ninguém deve assumir um título que o Senhor não lhe conferiu. Além disso, a verdade de que os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos (Lucas 13:30) deve dissuadir qualquer pessoa que queira chamar a esposa de um pastor de “Primeira-Dama”.

Por fim, às vezes as expectativas em relação à “Primeira-Dama da Igreja” acabam colocando uma pressão injusta sobre a esposa do pastor. Às vezes, tudo o que ela realmente deseja é ser a companheira de seu marido e orar, ensinar outras mulheres e servir à sua família na igreja conforme o Senhor a equipou e orientou — sem nenhum título especial. Devemos ter cuidado para não permitir que as congregações imponham expectativas extra-bíblicas aos pastores e suas famílias.

Ninguém na igreja deveria buscar títulos entre os irmãos, especialmente um título que diga “primeira” em relação a qualquer coisa. Da mesma forma, ninguém na igreja deveria usar títulos ou qualquer outro meio de fazer uma distinção não bíblica de superioridade entre os crentes.