Pergunta

O que é a ideologia da pílula preta?

Resposta
A ideologia da pílula preta envolve duas ideias principais. A primeira é que as mulheres escolhem parceiros sexuais inteiramente com base em instintos relacionados à aparência. A segunda é que homens sem certas características físicas estariam condenados, sem esperança, à frustração. O termo black pill (“pílula preta”) é uma referência ao conceito de “pílula azul/pílula vermelha” do filme Matrix, de 1999. Nesse filme, tomar a pílula vermelha abre os olhos da pessoa para uma realidade dura. A “pílula preta” seria uma extensão fatalista dessa ideia. O conceito da pílula preta também está intimamente ligado aos movimentos Incel (celibatário involuntário da sigla em inglês) e MGTOW (Men Going Their Own Way — “homens seguindo seu próprio caminho”).

Em resumo, o conceito da pílula preta é um absurdo (veja Zacarias 10:2). Relacionamentos são difíceis. Alguns são mais difíceis do que outros. A resposta adequada não é recorrer a estereótipos ainda piores e à paranoia. Influenciadores que promovem ideias da pílula preta exploram inseguranças e medos (veja Provérbios 16:28–29). Existe esperança e ajuda para aqueles que as desejam, mas não por meio dos conceitos da pílula preta. Algumas pessoas percorrem caminhos mais difíceis do que outras, inclusive nos relacionamentos. Isso não as torna “sem esperança”. Não há valor em técnicas milagrosas que apenas tornam as pessoas ainda mais miseráveis.

Os ideólogos da pílula preta não são diferentes de leitores de horóscopo ou médiuns. Trata-se de uma versão moderna e cínica da frenologia (a alegação de que protuberâncias no crânio explicam tudo sobre o intelecto e a personalidade de alguém). Pior ainda, a pílula preta leva homens a tratarem mulheres como animais guiados apenas pelo instinto ou máquinas sem raciocínio, incapazes de evitar reagir a certos estímulos. A pílula preta faz os homens se sentirem inseguros enquanto oferece soluções que pioram o problema.

Produtos de beleza femininos frequentemente são divulgados usando medo e manipulação. Publicitários inventam palavras da moda e padrões arbitrários. Depois, vendem produtos para corrigir “necessidades” que antes nem eram consideradas problemas. O mesmo acontece quando se aconselha homens dizendo que pequenos traços corporais são tudo o que importa para “conquistar mulheres”. Predadores criam um problema para convencer as pessoas de que seu produto, serviço ou entretenimento vale o dinheiro gasto. Eles apresentam depoimentos como prova. Assim como mulheres devem ser cautelosas com influenciadores de moda e beleza, homens devem evitar pessoas que exploram insegurança e medo. Isso é ainda mais verdadeiro quando o objetivo é convencer homens de que estão condenados a ficar sozinhos.

As preferências quanto à aparência de um parceiro mudaram constantemente ao longo da história, tanto para homens quanto para mulheres. O Renascimento preferia um tipo físico feminino que a sociedade ocidental moderna chamaria de “tamanho maior”. Na década de 1920, o ideal americano era de mulheres magras, com aparência mais masculina e sem curvas acentuadas. Uma cultura em determinada época aplica padrões de beleza que outras culturas e épocas consideram feios. É tolice afirmar que homens ou mulheres “sempre” procuraram um conjunto específico de características físicas sutis no sexo oposto. E a sugestão de que certas características acionariam algum “instinto de acasalamento” feminino é absurda.

A ideologia da pílula preta é alimentada pela luta do mundo moderno com as mudanças tecnológicas. Aplicativos de encontros casuais e influenciadores misóginos são sintomas evidentes disso. Nunca foi tão fácil colocar diante das pessoas uma versão de “perfeição” e convidá-las à comparação. Pessoas se envergonham injustamente enquanto desprezam outras que são tão comuns quanto elas mesmas. Ironicamente, viver segundo conceitos da pílula preta apenas atrai os tipos superficiais e mesquinhos dos quais o movimento reclama. Se você pesca em um pântano, não deve se surpreender se tudo o que pegar forem sapos e jacarés. Os “bons peixes” estão em outro lugar (veja Provérbios 5:3–6).

A maioria das mulheres não é tão superficial a ponto de buscar apenas parceiros sexuais. Homens que se identificam como celibatários involuntários ou adeptos da pílula preta frequentemente fazem exatamente aquilo de que acusam os outros. Eles exigem apenas parceiras “de primeira linha”, definidas pela aparência, enquanto reclamam que essas mesmas parceiras “de primeira linha” não correspondem aos seus sentimentos. Tratam mulheres como presas a serem caçadas e capturadas.

Praticamente todas as pessoas que já viveram precisaram trabalhar duro para manter relacionamentos, alcançar sucesso e até garantir a própria sobrevivência (Gênesis 3:16–18). Um relacionamento que surge “facilmente” é a rara exceção. Ainda assim, muitas pessoas de ambos os sexos encontram conexões profundas e duradouras. Ninguém deve se sentir enganado porque a intimidade não vem de maneira simples ou barata. Se você percebe imperfeições em seu corpo, acha o romance complicado ou experimenta rejeição, você não está “quebrado” — você é normal (veja João 16:33; Romanos 8:22).