Pergunta

O que é bioética? Como a Bíblia pode orientar a bioética?

Resposta
Bioética, às vezes chamada de “ética biomédica”, aplica teorias de moralidade e direito a temas relacionados à saúde e à medicina. Isso inclui questões reprodutivas, alocação de recursos, genética, experimentação, pesquisa, direitos dos pacientes, ecologia e assim por diante. Como a cosmovisão básica de uma pessoa influencia fortemente sua avaliação dessas questões, não existe bioética religiosamente ou espiritualmente neutra. Questões últimas sobre certo e errado estão sempre ancoradas nas crenças mais profundas de alguém sobre significado e existência. A Bíblia informa a bioética por meio do que ensina sobre a humanidade e o valor humano.

A ética abrange desde questões simples até extremamente complexas. Perguntas em grande escala podem parecer óbvias, mas tornam-se complicadas quando aplicadas a situações específicas. Por outro lado, um incidente isolado pode ser tratado de forma simples, mas ampliar sua aplicação para uma visão mais ampla pode gerar confusão. As Escrituras oferecem princípios gerais e limites. Quanto mais específica a situação, mais a consciência individual entra em cena (veja Romanos 14:2–4). Cristãos individuais podem discordar sobre a melhor aplicação dos princípios éticos em cenários do mundo real.

Humanidade e Pessoa Humana

A pedra fundamental da bioética bíblica é a compreensão da humanidade e da pessoa humana. Segundo a Bíblia, todos os seres humanos são criados à imagem de Deus (Gênesis 1:27) desde o momento da concepção (Lucas 1:41–44; Hebreus 2:17). Deus considera o assassinato (Gênesis 9:6; Êxodo 20:13) e a violação do inocente (Provérbios 6:16–19) pecados hediondos. Toda pessoa, independentemente de biologia, etnia (Gálatas 3:28) ou deficiência, possui igual valor moral diante de Deus. Nenhuma pessoa é sem valor (Mateus 25:40, 45). Nenhuma experiência é sem sentido (Salmo 56:8; Mateus 12:36). Embora as Escrituras possam permitir certo raciocínio baseado em um “bem maior” (João 11:50), não há justificativa para abusar dos desfavorecidos ou indefesos (Zacarias 7:9–10).

Com isso como fundamento, alguns temas são profundamente influenciados pela bioética cristã.

Aborto, Fertilidade e Células-Tronco

Segundo a Bíblia, sacrificar inocentes em benefício pessoal é algo abominável (Salmo 106:37–38; 2 Crônicas 33:6). Filhos são uma bênção (Salmo 127:5; Marcos 10:13–16), e a reprodução faz parte do mandamento de Deus para a raça humana (Gênesis 1:28; 9:7). Uma perspectiva cristã sobre bioética se opõe a ferir ou matar uma pessoa ainda não nascida. Isso significa rejeitar a maioria dos procedimentos incluídos sob o termo “aborto”. Medidas tomadas para salvar uma vida quando a morte parece inevitável, ou em outras circunstâncias extremas, exigem discernimento. Mas matar deliberadamente uma pessoa não nascida por conveniência, preferência, deficiência, gênero, raça ou circunstâncias da concepção é categoricamente imoral dentro de uma cosmovisão bíblica.

As visões cristãs sobre contracepção e tratamentos de infertilidade, como a fertilização in vitro (FIV), decorrem dos mesmos princípios. Quando métodos contraceptivos impedem totalmente a concepção, o debate entra no campo da ética sexual. Métodos de “contracepção” que, na verdade, causam abortos precoces não ficam sujeitos a gostos pessoais; eles são essencialmente imorais.

Da mesma forma, uma visão bíblica da bioética não necessariamente proíbe a união medicamente assistida de espermatozoide e óvulo, nem a transferência dessa vida para um útero. Porém, criar embriões — criar vidas humanas — com a intenção de descartar alguns deles contradiz as mesmas preocupações bioéticas ligadas ao aborto.

Pesquisas com células-tronco têm mostrado resultados promissores usando células adultas. Pesquisas com células-tronco embrionárias só seriam justificadas se os embriões — os seres humanos ainda não nascidos — não fossem feridos nem mortos durante o processo de coleta. Quando ocorre dano ou morte, os mesmos limites relacionados ao aborto voltam a se aplicar.

Qualidade de Vida, Eutanásia e Deficiência

Como as Escrituras atribuem alto valor à vida humana (Mateus 10:31; Salmo 72:12–14), nem o suicídio nem os “assassinatos por misericórdia” médicos seriam considerados éticos. Entretanto, a Bíblia não exige que alguém lute por mais alguns segundos de vida na terra (Salmo 90:10; 2 Coríntios 5:2, 8). Escolher não resistir a uma condição, aceitando a morte, não é uma forma de suicídio. A qualidade de vida é algo legítimo para um paciente considerar em sua própria tomada de decisão diante de Deus. Porém, ela não serve como desculpa para terceiros julgarem a vida de outra pessoa como indigna (Provérbios 1:15–16; Salmo 71:7–11).

Incentivar o suicídio também viola uma visão bíblica da bioética. O ensino bíblico promove manejo da dor, apoio, encorajamento e cura na maior medida possível. Contudo, acabar com a própria vida apenas para encerrá-la é autoassassinato. Políticas de eutanásia também colocam os desfavorecidos em risco. Elas dão a terceiros poder para pressionar idosos, pobres ou pessoas com deficiência a escolherem aquilo que é mais “conveniente” para os outros (Salmo 82:3–4).

Esses princípios também se aplicam a conceitos como deficiência ou defeitos congênitos. O valor inerente de uma pessoa não desaparece por causa de um defeito de nascimento. A bioética cristã considera aqueles com “necessidades especiais” igualmente humanos e igualmente dignos de proteção, cuidado e apoio como qualquer outra pessoa. Quer alguém nasça com uma deficiência, quer a adquira ao longo da vida, a ética bíblica afirma que essa pessoa é valiosa e sagrada desde o momento da concepção.

Ideologia de Gênero

As Escrituras são claras quanto à distinção binária pretendida entre homem e mulher (Gênesis 1:27). Isso afeta a ética cristã em tudo, desde sexualidade, casamento e família até temas biomédicos. Sentimentos subjetivos não mudam a compreensão bíblica do propósito de Deus. A bioética cristã rejeita a ideia de que uma pessoa possa mudar de “gênero” em qualquer sentido espiritualmente ou moralmente significativo. A Bíblia não define gênero por escolhas de vestuário, hobbies, interesses ou autoimagem. Nem aprova a ideia de que alguém possa “nascer no corpo errado”. Assim como atrações homossexuais podem estar além da escolha de uma pessoa, mas são imorais de serem afirmadas, a confusão de gênero pode ser uma luta legítima que as pessoas devem ser ajudadas a controlar e/ou superar (veja 1 Coríntios 6:9–11). Mutilar o corpo para se adequar à confusão é algo terrível sob a perspectiva bíblica.

Ao mesmo tempo, as Escrituras reconhecem que algumas pessoas nascem em circunstâncias fora do padrão “normal” de gênero ou sexualidade (Mateus 19:10–12). A bioética cristã exige que aqueles que são verdadeiramente — fisicamente e geneticamente — intersexo sejam tratados com dignidade e compaixão especiais. Nesses casos, percepção, preferência, cultura e escolha podem fazer parte razoável da discussão sobre identidade de gênero.

A bioética cristã defende apaixonadamente amor, dignidade e proteção para todas as pessoas (Apocalipse 7:9; Gálatas 3:28). Mas ela não apoia a afirmação da confusão de gênero. A bioética cristã também se opõe a adultos fazerem mudanças permanentes na fisiologia ou química corporal de uma criança em nome dessas ideias (Marcos 9:42; Mateus 23:15). A maioria dos outros aspectos da ideologia transgênero é social e política, não diretamente ligada à bioética.

Todo o Resto

Muitas pessoas têm opiniões fortes e espiritualmente fundamentadas sobre outros temas bioéticos. Vacinas, seguros de saúde, experimentação animal e outras questões envolvem valores pessoais importantes. Todos os aspectos da vida estão sujeitos à autoridade de Deus e às instruções de Sua Palavra (2 Timóteo 2:15; 3:16; 1 João 2:3–4). Contudo, nem toda questão é abordada com o mesmo nível de certeza. Fora de temas claros e óbvios, existe espaço para os crentes discordarem sobre a ética de decisões médicas e relacionadas à saúde (Romanos 14:1, 23).