Pergunta

O que significa Colossenses 2:21: “Não toqueis. Não comeis. Não pegueis”?

Resposta
Em Colossenses 2:16–23, o apóstolo Paulo ensina que a vida cristã não consiste em seguir um conjunto de regras; é uma nova vida de liberdade em Cristo: “Se vocês morreram com Cristo para os rudimentos do mundo, por que se sujeitam a regras, como se ainda vivessem no mundo? 'Não toque nisto', 'não coma disso', 'não pegue naquilo'. Todas estas coisas se destroem com o uso; são preceitos e doutrinas dos homens. De fato, essas coisas têm aparência de sabedoria, ao promoverem um culto que as pessoas inventam, falsa humildade e tratamento austero do corpo. Mas elas não têm valor algum na luta contra as inclinações da carne” (Colossenses 2:20–23).

Falsos mestres haviam se infiltrado na igreja primitiva e estavam impondo certas práticas ascéticas e restrições alimentares aos cristãos como um caminho para a espiritualidade, a santidade e a salvação (ver Colossenses 2:8, 16; Gálatas 2:4; 1 Timóteo 4:3). Essas proibições provavelmente diziam respeito a alimentos, bebidas e outras substâncias materiais consideradas impuras por eles. Paulo resumiu a longa lista de regras humilhantes em três breves mandamentos: “Não toque. Não coma. Não pegue.” Essas regras não vinham de Deus, mas eram invenções humanas.

Em resumo, Paulo estava alertando contra o legalismo. Quando tentamos medir a nossa própria condição espiritual ou a de outra pessoa pela capacidade de obedecer a regras criadas por humanos, nos tornamos escravos do legalismo.

Legalismo refere-se à adesão à letra da lei, em vez de ao espírito da lei. “A letra mata, mas o Espírito dá vida”, escreve Paulo (2 Coríntios 3:6; ver também Romanos 7:6). Tentar obedecer estritamente às regras e mandamentos sem a transformação interior do Espírito Santo leva à condenação e à morte. O Espírito oferece vida e a capacidade de cumprir a lei de Deus livremente, a partir do coração (ver 2 Coríntios 3:17).

Não toque. Não coma. Não pegue. Essas regras frias e rígidas descrevem um modo de vida rígido, confinado e tedioso. Além disso, o legalismo gera hipocrisia e orgulho, como os fariseus provaram (ver Mateus 23:1–36; Lucas 11:37–12:3). Jesus os repreende: “Bem profetizou Isaías a respeito de vocês, hipócritas, como está escrito: 'Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos humanos.' Rejeitando o mandamento de Deus, vocês guardam a tradição humana. E disse-lhes ainda: 'Vocês sempre encontram uma maneira de rejeitar o mandamento de Deus para guardarem a própria tradição'” (Marcos 7:6–9).

A vida cristã está centrada no relacionamento com Jesus Cristo. Ele é o alicerce e a fonte de vida do crente. Todos aqueles que depositam a sua confiança em Jesus são livres para viver com retidão por meio dEle (Romanos 6:1–23; 8:1–2; Gálatas 5:1). Paulo explica que as regras e o cumprimento delas “são apenas sombras das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo” (Colossenses 2:17). Não há substância espiritual genuína nas observâncias legalistas. Paulo diz que elas “não têm valor algum na luta contra as inclinações da carne” (Colossenses 2:23).

Rituais externos não têm poder para mudar os nossos impulsos internos (ver Mateus 23:25–28; 1 Pedro 3:3–4). Podemos nos privar o dia inteiro, mas isso não mudará a nossa natureza pecaminosa. O verdadeiro valor — a fonte transformadora de poder — só é encontrado em Cristo. Somente Jesus pode nos renovar de dentro para fora (ver João 3:3–7). Ele nos salva “não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua misericórdia. Ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo” (Tito 3:5).

Jesus é a nossa santidade, justiça e salvação (ver Colossenses 2:11–15). Por causa de Seu sacrifício na cruz, somos perdoados, purificados e recebemos uma nova natureza (Romanos 6:4; Gálatas 2:20). Não há prática ou privação que possamos adotar para alcançar uma posição justa diante de Deus. Isso só pode ser alcançado por meio da fé em Jesus Cristo (Romanos 3:21–26; 5:1–2; Gálatas 2:16).

Nenhuma quantidade de observância religiosa pode nos salvar. Pelo contrário, essas regras — Não toque. Não coma. Não pegue. — tornam-se obstáculos à verdadeira santidade, levando-nos por um caminho de escravidão, orgulho e hipocrisia espiritual. Os crentes devem confiar apenas na graça de Deus em Jesus Cristo: “Porque pela graça vocês são salvos, mediante a fé; e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8–9).

Na Parte Um de O Peregrino, de John Bunyan, Cristão aceita um conselho errado e “desviou-se do caminho para ir à casa do Sr. Legalidade em busca de ajuda”. Ele logo se depara com ameaças de perigo e destruição, e fica paralisado de medo. Evangelista o encontra e o repreende por ter se desviado do caminho da cruz. Ele diz a Cristão: “Legalidade não é capaz de te libertar do teu fardo. Nenhum homem jamais se livrou de seu fardo por meio dele; não, nem jamais o fará: não podes ser corrigido por nenhum plano desse tipo. [...] O Sr. Legalidade é um trapaceiro”. E ele lembra a Cristão que “todos os que confiam nas obras da lei estão sob maldição” (Gálatas 3:10).

O Sr. Legalidade, na alegoria de Bunyan, representa o legalismo. Tudo o que ele pode fazer é dar ordens: “Não toque. Não coma. Não pegue.” Mas essas ordens estão longe de poder ajudar o Cristão a aliviar o seu fardo ou a encontrar o caminho da salvação.