Pergunta

O que é a inerrância limitada? Será que apenas algumas partes da Bíblia são inerrantes?

Resposta
Desde os primeiros dias da igreja, os cristãos têm sustentado que a Bíblia é inspirada, infalível e inerrante. Ou seja, ela foi soprada por Deus e está livre de erros. A Bíblia é a Palavra de Deus, e Deus não pode mentir (Tito 1:2; Hebreus 6:18). Em João 17:17, Jesus identificou a Palavra de Deus como a verdade. A doutrina da inerrância sempre foi fundamental para a crença da igreja na autoridade das Escrituras. Contudo, um movimento dentro do neoevangelicalismo defende a chamada inerrância limitada — a crença de que apenas partes da Bíblia são inerrantes. Essa posição acaba sendo autodestrutiva.

A inerrância limitada, conforme apresentada por Jack Rogers e Donald McKim, afirma que a Bíblia não contém erros em assuntos relacionados à salvação, mas admite possíveis erros em questões históricas ou científicas (A Autoridade e a Interpretação da Bíblia: Uma Abordagem Histórica, Harper & Row, 1979). Rogers e McKim propuseram que os autores bíblicos escreveram dentro do gênero biográfico greco-romano, o qual permitia diálogos inventados, exageros lendários, imprecisões históricas e até elementos fictícios.

A crença na inspiração limitada pressupõe que os escritores bíblicos criaram suas histórias como veículos de ensino teológico, em vez de registrarem acontecimentos históricos reais. Porém, aceitar a verdade teológica enquanto se rejeita a verdade histórica destrói a confiabilidade da Bíblia como um todo. Como podemos garantir a veracidade de uma parte se outra parte for falsa? Se um jornal errasse 25% de suas reportagens, quem confiaria nos outros 75%? A precisão importa.

Além disso, qual porcentagem da Bíblia seria errante e qual seria inerrante? Quem decide quais partes são fatos e quais são ficção? Os intérpretes que adotam a inerrância limitada acabam colocando a razão humana acima da Palavra de Deus. Eles mesmos se tornam juízes da revelação divina. Qualquer critério usado para determinar a veracidade de um texto passa a funcionar como autoridade superior ao próprio texto.

Em seu livro Autoridade Bíblica, John Woodbridge analisa a abordagem de Rogers e McKim sobre a autoridade bíblica e demonstra que essa posição é falsa e tendenciosa (Zondervan, 1982). A batalha em defesa da Bíblia remonta aos pais da igreja, aos reformadores e aos teólogos ortodoxos, que abraçaram plenamente a inspiração e a inerrância das Escrituras.

Uma rachadura no fundamento acabará derrubando toda a estrutura. Felizmente, “o firme fundamento de Deus permanece” (2 Timóteo 2:19). Em 1978, um grupo de mais de 300 evangélicos elaborou a Chicago Statement on Biblical Inerrancy (Declaração de Chicago sobre a Inerrância Bíblica). O documento afirma que “a autoridade das Escrituras é essencial para a Igreja Cristã em todas as épocas”. A declaração ensina que o fato da inspiração garante que tudo o que os autores bíblicos afirmam — seja doutrinário ou histórico — é verdadeiro. Conforme afirma a parte 4 da versão resumida da declaração:

“Sendo totalmente e verbalmente dada por Deus, a Escritura está livre de erro ou falha em tudo o que ensina, tanto no que afirma sobre os atos de Deus na criação, sobre os acontecimentos da história mundial e sobre sua própria origem literária sob Deus, quanto em seu testemunho da graça salvadora de Deus na vida das pessoas.”

O erro neo-ortodoxo de enxergar a Bíblia como um testemunho falível da Palavra de Deus, em vez de reconhecê-la como a própria Palavra de Deus, continua presente no movimento da inerrância limitada. A consequência trágica de abandonar a inerrância completa é que as pessoas perdem a sua ligação com o fundamento da verdade. Precisamos preservar a convicção de que a Palavra de Deus fala com veracidade sobre todos os assuntos — espirituais, morais e históricos.