Pergunta

Quais são os quatro Cânticos do Servo em Isaías?

Resposta
Há quatro "Cânticos do Servo" de Isaías que descrevem o serviço, o sofrimento e a exaltação do Servo do Senhor, o Messias. Todas as quatro canções mostram que o Messias é o Servo manso e gentil de Deus. Ele é uma figura real, representando Israel em sua forma ideal; Ele é o sumo sacerdote, expiando os pecados do mundo. Isaías prediz que esse Servo do Senhor libertaria o mundo da prisão do pecado. Na terminologia real do antigo Oriente Próximo, um servo era um "enviado de confiança", um "representante confidencial" ou "alguém que foi escolhido". Os cânticos do servo são encontrados em Isaías 42:1-9; Isaías 49:1-13; Isaías 50:4-11; e Isaías 52:13-53:12.

Inicialmente, Isaías identifica o servo de Deus como Israel (41:8; 44:1-2), que serve como testemunha de Deus (43:10) e como luz para os gentios. No entanto, Israel não conseguiu cumprir essa missão: Israel era surdo, cego (42:19) e precisava do perdão de Deus (44:21-22). Israel falhou repetidas vezes. Por outro lado, o Servo de Deus, o Messias, conclui fielmente todo o trabalho que lhe foi confiado (cf. Lucas 13:32; João 17:4). O Servo do Senhor é a testemunha fiel e verdadeira de Deus para a humanidade.

Em Atos 3:13, Pedro chama Jesus de "servo" de Deus. Esse versículo diz, em parte: "O Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, o Deus dos nossos pais, glorificou o seu Servo Jesus, a quem vocês traíram e negaram diante de Pilatos, quando este já havia decidido soltá-lo." A descrição de Pedro de Jesus como um "servo" é precisa por pelo menos quatro motivos:

1) Jesus sempre fez a vontade do Pai (João 4:34; 6:38).

2) Jesus nunca procurou agradar a si mesmo, mas sempre agradar ao Pai (João 5:30).

3) Jesus terminou a obra que Deus O havia enviado para fazer (João 17:4).

4) Jesus veio para glorificar o Pai (João 13:31; 17:4).

Além disso, a referência de Pedro a Jesus como o "servo de Deus" teria trazido à mente de seus ouvintes judeus as passagens de Isaías que descrevem o Messias como o "Servo do Senhor". Aqui está uma breve olhada nos quatro cânticos do servo em Isaías:

Isaías 42:1-9. Esse primeiro dos quatro Cânticos do Servo nos apresenta o Servo do Senhor:

"Eis aqui o meu servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem a minha alma se agrada. Pus sobre ele o meu Espírito, e ele promulgará o direito para os gentios. Não clamará, não gritará, nem fará ouvir na praça a sua voz. Não esmagará a cana quebrada, nem apagará o pavio que fumega; com fidelidade, promulgará o direito. Não desanimará, nem será esmagado até que estabeleça na terra a justiça; e as terras do mar aguardarão a sua doutrina" (versículos 1-4).

De acordo com esse hino, o Servo do Senhor é escolhido por Deus, e Deus se deleita nele. O Servo tem o Espírito de Deus habitando nele. Os primeiros quatro versículos dessa passagem são aplicados especificamente a Jesus em Mateus 12:18-21.

Quando Jesus foi batizado no rio Jordão, o Espírito de Deus desceu sobre Ele, e uma voz do céu disse: "Este é o meu Filho, a quem amo; nele me comprazo". Essa foi uma alusão divina a Isaías 42. O ensino claro do Novo Testamento é que Jesus Cristo é o Servo nas profecias do Cântico do Servo.

Isaías 49:1-13. Esse segundo dos quatro Cânticos do Servo fala da obra do Messias no mundo e de Seu sucesso.

A declaração do Servo de que "antes que eu nascesse, o Senhor me chamou" (versículo 1) usa uma linguagem semelhante ao chamado do profeta Jeremias (Jeremias 1:5). A referência em Isaías 49:2 à boca do Servo do SENHOR sendo "como uma espada aguda" é uma imagem profética que aparece várias vezes no Novo Testamento (Efésios 6:17; Hebreus 4:12; Apocalipse 1:16; 2:12, 16; 19:15).

No segundo Cântico do Servo, o Messias exibe o esplendor de Deus (versículo 3), restaura o povo de Deus (versículo 6) e é honrado aos olhos de Deus (versículo 5). Significativamente, o Messias sente uma grande perda: "Tenho trabalhado em vão; gastei as minhas forças por nada e à toa" (versículo 4), mas, no final, Ele recebe aclamação mundial:

"O Senhor, o Redentor e Santo de Israel, diz ao que é desprezado, ao que é detestado pelas nações, ao servo dos dominadores: 'Os reis o verão e se levantarão; os príncipes se inclinarão diante de você por amor do Senhor, que é fiel, e do Santo de Israel, que o escolheu'" (versículo 7).

O Servo do Senhor supervisionará a restauração da terra e o estabelecimento de um reino pacífico (versículos 8-13). O Messias será o agente do conforto do Senhor para o Seu povo (versículo 13).

Além de ser Aquele que restaurará a terra de Israel (versículo 8), o Messias é escolhido para redimir os gentios:

"Para você, é muito pouco ser o meu servo para restaurar as tribos de Jacó e trazer de volta o remanescente de Israel. Farei também com que você seja uma luz para os gentios, para que você seja a minha salvação até os confins da terra" (versículo 6).

Dessa forma, a salvação de Deus é levada a todas as pessoas. Cristo Jesus é "a luz do mundo" (Lucas 2:30-32; João 8:12; 9:5) e o cumprimento das profecias de Isaías. Em sua primeira viagem missionária, Paulo e Barnabé levam o evangelho aos gentios em Antioquia e citam Isaías 49:6. A reação dos gentios em Antioquia é de pura alegria: "Os gentios, ouvindo isto, se alegravam e glorificavam a palavra do Senhor" (Atos 13:48). Em Cristo, tanto judeus quanto gentios são feitos um (Efésios 2:11-18).

Isaías 50:4-11. Esse terceiro cântico do Servo contrasta o pecado de Israel com a obediência do Servo.

Também vemos que o Messias será perseguido, mas será vindicado. Os versículos anteriores a esse cântico (Isaías 50:1-3) comparam Israel a uma esposa imoral; somente Deus tem o poder de resgatá-la de volta. A partir do versículo 4, o Servo responde à instrução de Deus. Ele não é rebelde (versículo 5), mesmo quando a sua obediência a Deus resulta em sofrimento:

"Ofereci as costas aos que me batiam e o rosto aos que me arrancavam a barba; não escondi o rosto dos que me afrontavam e cuspiam em mim" (versículo 6).

O Servo do Senhor expressa a sua confiança de que Deus o ajudará e que ele será considerado inocente (versículos 7-9). Com essa confiança, o Messias decide levar a Sua tarefa até o fim, não importa quão difícil seja o caminho (cf. Lucas 9:51).

Cerca de 700 anos depois, Jesus também cumpriu essa profecia. Abusos e insultos foram lançados sobre o nosso Senhor quando Ele foi jogado aos soldados romanos. As Suas costas foram espancadas, o Seu rosto foi atingido e Ele foi cuspido (ver João 19:1-3; Mateus 27:30). O Senhor Jesus foi obediente até a morte (Filipenses 2:8), e o Pai justificou o Seu Servo Sofredor ressuscitando-O. "Porque o Senhor Deus me ajuda. Por isso, não serei humilhado; por isso, fiz o meu rosto como uma pedra e sei que não serei envergonhado" (Isaías 50:7).

Isaías 52:13-53:12. Esse quarto cântico climático do Servo descreve o sofrimento e o triunfo do Servo do SENHOR. É também uma das passagens mais detalhadas do Antigo Testamento sobre a morte e a ressurreição do Messias.

O cântico começa com a promessa de que o Servo será exaltado (Isaías 52:13), mas logo em seguida passa para uma descrição de extrema violência:

"Como muitos pasmaram à vista dele — pois o seu aspecto estava tão desfigurado, mais do que o de outro qualquer, e a sua aparência, mais do que a dos outros filhos dos homens" (Isaías 52:14).

O Messias será "desprezado e rejeitado pela humanidade" (Isaías 53:3). Quando Ele for brutalmente punido, as pessoas presumirão que Ele está sendo afligido por Deus (versículo 4). Mas o quarto Cântico do Servo deixa claro por que Ele suporta tal perseguição:

"Mas ele foi traspassado por causa das nossas transgressões e esmagado por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos sarados" (versículo 5).

É o fato de nossa iniquidade ter sido colocada sobre Ele que explica o Seu sofrimento (versículo 6). O versículo 7 prediz que o Messias ficará em silêncio diante de Seus acusadores (cf. Mateus 27:14). O versículo 9 diz que, embora o Servo do Senhor seja inocente, Ele morrerá com os ímpios e estará "com os ricos na sua morte".

Isaías 53:10 nos diz por que o Servo morre:

"Todavia, ao Senhor agradou esmagá-lo, fazendo-o sofrer. Quando ele der a sua alma como oferta pelo pecado verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos."

Essa é a expiação substitutiva. A Sua vida pela nossa. A morte do Messias cumpriu a vontade de Deus com relação à nossa salvação.

Imediatamente após a profecia da morte do Servo, Isaías faz uma profecia surpreendente sobre a vitória do Servo:

"Todavia, ao Senhor agradou esmagá-lo, fazendo-o sofrer. Quando ele der a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos. Ele verá o fruto do trabalho de sua alma e ficará satisfeito. O meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si. Por isso, eu lhe darei a sua parte com os grandes, e com os poderosos ele repartirá o despojo, pois derramou a sua alma na morte e foi contado com os transgressores. Contudo, levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu" (versículos 10-12).

Portanto, no quarto Cântico do Servo, a morte não é o fim para o Servo. Depois de sofrer, ele "verá a luz da vida". Ele "dividirá os despojos". Seus dias serão prolongados. O que temos aqui é uma profecia da ressurreição de Cristo.

Todo o texto de Isaías 53 é uma imagem pungente e profética do evangelho. Jesus foi desprezado e rejeitado pelos homens (Lucas 13:34; João 1:10-11); Ele foi atingido por Deus (Mateus 27:46) e transpassado por nossas transgressões (João 19:34; 1 Pedro 2:24). Por meio de Seu sofrimento, Jesus recebeu a punição que merecíamos e se tornou para nós o sacrifício final e perfeito (Hebreus 10:10). Embora Seu Filho não tivesse pecado, Deus colocou sobre Ele o nosso pecado, e nós nos tornamos a justiça de Deus nEle (2 Coríntios 5:21). Jesus ficou em silêncio diante de Seus acusadores (Mateus 27:12, 14; 1 Pedro 2:23). Jesus foi crucificado entre dois ladrões, mas foi sepultado no túmulo de um homem rico (Mateus 27:38, 57-60). Na humilhação e exaltação final do Servo Sofredor, Ele reconcilia a humanidade com Deus (Mateus 8:17; Atos 8:30-35; Romanos 10:15-17; 15:21; 1 Pedro 2:24-25).

Quando o eunuco etíope está voltando para casa em sua carruagem, ele está lendo um dos Cânticos do Servo (Atos 8:32-33). O eunuco não tinha certeza de quem Isaías estava falando - era o próprio profeta ou outro homem? Filipe, o evangelista, teve o privilégio de usar Isaías 53 para apontar o etíope para Cristo: "Filipe começou com essa mesma passagem da Escritura e lhe contou as boas novas sobre Jesus" (Atos 8:35). Sem dúvida, os quatro Cânticos do Servo em Isaías são sobre Jesus. Nosso Senhor é o tema das Escrituras.