Pergunta
As parteiras hebreias deveriam ser elogiadas por terem mentido?
Resposta
As parteiras hebreias da época em que Moisés nasceu são creditadas por terem salvado muitas vidas ao desafiarem o rei do Egito e sua ordem de matar todos os bebês hebreus do sexo masculino. As parteiras, cujos nomes eram Sifrá e Puá (Êxodo 1:15), mantiveram os bebês vivos. Quando levadas à presença do rei para explicar as suas ações, as parteiras disseram: "É que as mulheres hebreias não são como as egípcias; são vigorosas e dão à luz antes que a parteira chegue" (versículo 19). Essa declaração, por si só, parece ser uma mentira. O que é frequentemente debatido é se foi ou não uma mentira necessária ou justificada.
A mentira das parteiras ocorre dentro do contexto da escravidão. Muitos anos após a morte de José, um novo faraó subiu ao poder. Esse novo rei não sabia nada sobre José. Tudo o que o novo rei podia ver era que a população israelita estava ficando mais forte a cada dia. Temendo uma revolta, o Faraó ordenou que os capatazes oprimissem os hebreus com trabalho físico pesado. "Mas quanto mais os afligiam, tanto mais se multiplicavam e tanto mais se espalhavam, de maneira que os egípcios se inquietavam por causa dos filhos de Israel" (Êxodo 1:12).
O Faraó decidiu dificultar ainda mais a vida dos hebreus e "então os egípcios, com tirania, escravizaram os filhos de Israel" (Êxodo 1:13). Pior ainda, o Faraó decretou às parteiras hebréias: "Quando vocês servirem de parteira às mulheres hebreias, verifiquem se é menino ou menina; se for menino, matem; se for menina, deixem viver" (versículo 16).
Mas as parteiras hebreias "temeram a Deus" e permitiram que os bebês do sexo masculino vivessem (Êxodo 1:17). Para seu crédito, elas valorizaram a lei de Deus acima das leis do Faraó e se recusaram a cometer o ato de infanticídio. O Faraó descobriu a desobediência delas e convocou Sifrá e Puá. Quando questionadas sobre o motivo pelo qual os meninos estavam sendo autorizados a viver, as parteiras responderam com o que supomos ser uma mentira (versículo 19). Os israelitas continuaram a crescer em número e força (versículo 20). Além disso, o Senhor recompensou bem as parteiras, dando-lhes as suas próprias famílias (versículo 20).
Deus, que é a Verdade, deseja que o Seu povo fale a verdade (Levítico 19:11; 1 João 2:21), e certamente as parteiras sabiam que a honestidade é a vontade de Deus. Mesmo assim, Sifrá e Puá mentiram. O Novo Testamento dá um exemplo de pessoas mortas na hora por mentir para Deus (Atos 5:1-11). Então, por que as parteiras hebreias parecem ter um passe livre? Uma diferença fundamental entre esses dois casos é a motivação. As parteiras mentiram para o tirano egípcio para encobrir a desobediência ao seu decreto ímpio. O casal de Atos 5 mentiu por motivos egoístas. Além disso, Sifra e Puá mentiram para um rei maligno e assassino; Ananias e Safira mentiram para Deus.
Devemos observar também que a Bíblia não diz que Deus elogiou as parteiras hebreias especificamente por sua mentira. O motivo declarado na Bíblia para a bênção de Deus é que "as parteiras temiam a Deus" (Êxodo 1:21), não o fato de terem mentido, em si. É claro que a falsidade delas foi parte de seu esforço para salvar vidas, portanto, talvez Deus tenha ignorado a mentira e elogiado a sua motivação piedosa. Talvez eles tenham recebido o perdão de Deus pelo ato de mentir e tenham sido abençoados por seu ato de misericórdia para com os filhos recém-nascidos de Israel.
Outra consideração é que as parteiras podem ter contado pelo menos uma meia-verdade. É possível que, de modo geral, as mulheres hebreias dessem à luz rapidamente e que alguns nascimentos tenham ocorrido antes de as parteiras entrarem em cena. As parteiras podem ter sido culpadas apenas de esconder o fato de que, quando conseguiam chegar antes do momento do parto, não matavam os machos. De qualquer forma, elas foram recompensadas não por suas palavras, mas por suas obras.
Casos semelhantes, como o enfrentado pelas parteiras hebreias, podem ser encontrados em toda a história bíblica e em nossos dias. Embora raras, algumas situações parecem exigir o obscurecimento da verdade em face do mal. A falsidade de Raabe ao esconder os espiões israelitas do rei de Jericó (Josué 2; Tiago 2:25-26) é um exemplo. Aqueles que esconderam os judeus dos nazistas na Segunda Guerra Mundial são outro exemplo. Parece que, quando vidas humanas inocentes estão em jogo, escolher o menor de dois males é apropriado.
Outro princípio importante é ilustrado na história das parteiras hebreias. Não precisamos obedecer às autoridades da humanidade se elas exigirem que façamos algo que vai contra a lei maior de Deus. Como Pedro e os outros apóstolos disseram: "É mais importante obedecer a Deus do que aos homens" (Atos 5:29). As parteiras hebreias obedeceram à vontade de Deus antes da vontade do Faraó, e Deus as recompensou ricamente.
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